02/07/2010

Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

22/06/2010

José Saramago (1922-2010)


Passado, presente, futuro

Eu fui. Mas o que fui já não me lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais,
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo arrebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago - Os poemas possíveis: poesia. Lisboa: Caminho, 1985

imagem retirada daqui

15/06/2010

Adriana Lisboa - nota biográfica


Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro em 1970, onde cresceu.
Mais tarde, morou em Paris e Avignon (França) e desde 2006 que vive entre o Rio de Janeiro e Denver, nos Estados Unidos da América.
Estudou música e literatura, foi cantora, flautista e professora.
Doutorada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, hoje dedica-se, em exclusivo, à escrita e à tradução.
Em 2003, recebeu o Prémio José Saramago com Sinfonia em branco (2001).
Rakushisha é o seu último romance e obra finalista no Prémio Literário Correntes d'Escritas/ Casino da Póvoa.


Para saber mais sobre Adriana Lisboa, aceder aqui.

Imagem retirada daqui

07/06/2010

Desvendando Rakushisha...


Naquela madrugada, o lápis rombudo desenhava o tornozelo e o pequeno osso protuberante. Yukiko não se mexia. (…) O corpo da mulher adormecida era quase fosforescente. Fogo-fátuo. Uma veia pulsava em seu pescoço e suas costas ondulavam ritmicamente, muito devagar, com a respiração. A mulher adormecida sonhava que um homem desenhava seu tornozelo e o pequeno osso protuberante. No sonho, ela se moveu. Seus olhos e seus braços estavam abertos.


Adriana Lisboa - Rakushisha. Lisboa: Quetzal, 2009. 155 p. ISBN 978-972-564-768-4

27/05/2010

Enquanto esperamos a chegada do Verão... Rakushisha...

17 de Junho (5ª feira) | 21h00
Biblioteca Municipal de Torres Vedras


Foi na Rakushisha - cabana dos diospiros caídos -, nos arredores de Kyoto, que o poeta viajante Matsuo Bashô, imortalizado pelos seus haikai, se hospedou na sua última viagem e redigiu um dos seus diários. E foi no metro do Rio de Janeiro que Haruki e celina se conheceram. Ele folheava um livro em japonês, de cuja ilustração fora incumbido; ela era uma mulhar triste e etérea, "pedaço de céu recoberto pela fina epiderme humana", que se apaixonou dele com curiosidade pelo seu escrito exótico.
Unidos pelo acaso e pelo texto de Bashô, em breve partiriam para Kyoto, em busca de coisas indefinidas, fios de teia de aranha, numa viagem de descoberta do Japão moderno e de si próprios. As vozes dos dois protagonistas e os versos do poeta japonês entretecem-se num registo depurado, a que não falta nem sobra uma só palavra, que faz de Rakushisha um romance haikai.


Dinamização: Isabel Raminhos

LOCAL: Biblioteca Municipal de Torres Vedras
PÚBLICO-ALVO: Adultos

07/05/2010

Maio traz-nos Myra

20 Maio (5ª feira) | 21h00
Biblioteca Municipal de Torres Vedras


Excerto:

Myra atravessou os carris desocupados em direcção ao mar. Cresciam ervas e tojo nas juntas e as traves e ferros estavam negros das marés vivas sujas de crude. O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas e verdes na distância branca e areciam, céu e mar, uma única onda a levantar-se para engolir a terra. Myra tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver aquele assombro. Se corresse por ali adentro ninguém daria com ela nunca mais...


MARIA VELHO DA COSTA - Biografia





Licenciada em Filologia Germânica, foi professora no ensino secundário e membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Tem o Curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria. Foi membro da Direcção e Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, de 1973 a 1978. Foi leitora do Departamento de Português e Brasileiro do King's College, Universidade de Londres, entre 1980 e 1987. Tem sido incumbida pelo Estado português de funções de carácter cultural: foi Adjunta do Secretário de Estado da Cultura em 1979 e Adida Cultural em Cabo Verde de 1988 a 1991. Desempenhou ainda funções na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e trabalha actualmente no Instituto Camões.

Consagrada, já em 1969, com o romance Maina Mendes, tornou-se mais conhecida depois da polémica em torno das Novas Cartas Portuguesas (1971), obra em que se manifesta uma aberta oposição aos valores femininos tradicionais. Esta publicação claramente anti-fascista e altamente provocatória para o regime, levou as suas três autoras a tribunal, tendo o 25 de Abril interrompido as sanções a que estavam sujeitas as denominadas 3 Marias: Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno.

Às teses de reivindicação feminina já enunciadas em “Novas Cartas Portuguesas", acrescenta-se, na sua obra, um inconformismo quanto aos cânones narrativos, inconformismo esse que se pode verificar também na sua obra de ensaio.

Para saber mais, aceder aqui


Dinamização: Isabel Raminhos


LOCAL: Biblioteca Municipal de Torres Vedras
PÚBLICO-ALVO: Adultos

27/04/2010

Sessão de Maio



A data da sessão de Maio do Quintas com Livros sofreu uma alteração.

Em vez de se realizar no dia 13 de Maio, como já havia sido mencionado, será adiada para o dia 20 de Maio - 5ª feira.

O livro para discussão é Myra, de Maria velho da Costa.

Boas leituras!

Imagem Google Images

13/04/2010

É já na próxima Quinta que vamos debater o Livro...

15 Abril (5ª feira) | 21h00
Biblioteca Municipal de Torres Vedras


Sinopse
Ao princípio era o frio. Quem teve frio em pequeno, terá frio o resto da vida, porque o frio da infância não desaparece nunca.
Juan José Millás deslocou-se de Valência para Madrid com seis anos. Uma mudança que significou abandonar a luz e o calor do Mediterrâneo, para se instalar numa zona suburbana e obscura da capital, marco fundamental da sua vida.
A rua Canillas, naqueles tempos de casas baixas e escombros, é o cenário da infância e da adolescência de Millás, um cenário que transporta o leitor para o ambiente do pós-guerra, desvendando-se os segredos, as aventuras, os desejos e as esperanças do protagonista. Um amigo condenado a morrer, O primeiro amor, Um vizinho espião, O pai e a mãe, naquela rua tudo ganha uma dimensão diferente, as coisas adquirem uma qualidade mágica.
Onde acaba a memória e começa a ficção? Esta é a realidade de um mundo, transformada em universo literário, uma autobiografia ficcionada- um livro imprescindível, belo e assombroso sobre o inevitável ofício de crescer.


Juan José Millás - Biografia

Juan José Millás (Valência, 1946)
Cedo muda para Madrid onde passará a maior parte da sua vida. Frequentou o curso de Filosofia e Letras, que veio a abandonar, desiludido com as limitações franquistas, dedicando- se a uma carreira administrativa que lhe proporcionasse tempo para escrever. É autor de romances como A Desordem do teu Nome, Assim Era a Solidão, Duas Mulheres em Praga e Laura e Júlio, entre outras, que o consagraram como um dos grandes escritores da actualidade.
Desde as suas primeiras publicações, foi reconhecido pelo público e pela crítica, destacando-se os prémios Sésamo, Nadal e Primavera. A sua obra narrativa está traduzida em vinte e três línguas.
É já na maturidade que Juan José Millás se dedica ao jornalismo. Cronista regular do diário El País, autor de reportagens e artigos em vários jornais, a sua prosa jornalística, várias vezes premiada, criou tantos apaixonados como a sua literatura.

Numa escrita sempre psicanalítica e profunda, mas também viva na criação de ambientes, o autor criou uma obra ímpar, galardoada com o Prémio Planeta 2007 e o Prémio Nacional da Narrativa 2008. O Mundo chega agora aos leitores portugueses.



Informação reunida aqui

26/03/2010

No segundo trimestre de 2010, voltamos à Quinta... com Livros



Durante o primeiro trimestre de 2010 e no âmbito das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres, foi promovida uma comunidade de leitores na Biblioteca Municipal de Torres Vedras dedicada ao tema A Guerra Peninsular na Literatura.

Passado este período, retomaremos em Abril a nossa Comunidade de Leitores Quintas com Livros.

Para os próximos três meses do ano, escolhemos para debate algumas das obras seleccionadas para o Prémio Literário Correntes d'Escritas/ Casino da Póvoa.

Eis as nossas sugestões:

15 de Abril
(5ª feira)


Dinamização: Goretti Cascalheira

***
13 de Maio
(5ª feira)

(Obra vencedora)

Dinamização: Isabel Raminhos

***
17 de Junho
(5ª feira)


Dinamização: Isabel Raminhos

A Biblioteca Municipal de Torres Vedras tem exemplares destas obras disponíveis para empréstimo.

Boas leituras.

Até a próxima Quinta... Com livros!

A sombra da águia - uma outra forma de relatar a guerra


Anos mais tarde, depois da Rússia, de Leipzig e de Waterloo, em Santa Helena e quase a patinar, o Anão confiaria ao seu fiel companheiro de desterro, Les Cases, que em Sbodonovo a Virgem lhe tinha aparecido. Caso contrário, como é que se consegue explicar, Les Cases: um batalhão que nem sequer é francês e muda o rumo da batalha sovando os russos pela medida grande, ou seja passando pela pedra de amolar toda a bateria de artilharia com peças de doze e quatro ou cinco regimentos, príncipe Rudolfkovski incluído. Segundo os seus últimos biógrafos, o Ilustre fazia estas confidências enquanto cravava agulhas num bonequinho de cera que representava a efígie do seu carcereiro, Sir Hudson Lowe, o malvado inglês a quem o governo de Sua Majestade Britânica encarregou do exílio e da liquidação, naquela ilhota do Atlântico transformada em prisão, do homem que tinha passado vinte anos a jogar bowling com as coroas da Europa. Ali, nos longos serões do Inverno, rodeado pelos últimos fiéis, o Petit cabrão passava revista às lembranças gloriosas enquanto Les Cases e Bertrand bebiam Porto e tomavam notas para a posteridade...

Excerto do Cap. VIII - Confidências em Santa Helena, pág. 81, in Arturo Pérez-Reverte - A sombra da águia. Porto: Porto Editora, 2009. 120 p. ISBN 978-972-0-04515-7