30/11/2011

O que o rio nos trouxe... Avieiros

15 de Dezembro (5ª feira) | 19h30
Casal do Gil de Baixo - Monte Redondo


Alves Redol e os “nómadas do rio” – uma leitura actualizada de Avieiros

Por Joaquim Moedas Duarte

«Em Avieiros Alves Redol (…) transporta-nos a um passado difícil nas margens do rio Tejo, nessa altura magnífico e belo. Ali a vida quotidiana dos ribatejanos gira em tomo do rio-vida, a que se encontram sujeitos de forma irremediável, que os arrasta no seu infortúnio e os exalta na sua bem-aventurança. Assim, o Tejo, terrível e generoso, é o responsável pelas suas alegrias, pela sua recompensa diária e pela sua riqueza, mas também pelo seu infor¬túnio e pobreza. Considerado um autêntico tratado sobre a lírica do rio e seus arredores, Avieiros fala-nos de um passado não tão remoto, contudo impossível de recuperar.» (do prefácio da edição de 2004, Mediasat)


Contamos com a sua inscrição!


Participação livre, até 20 participantes!

Contactos: IsabelRaminhos@cm-tvedras.pt ou 261 310 479


Atenção: A Biblioteca Municipal não garante transporte.
Será marcado um ponto de encontro em frente à Biblioteca Municipal para irmos em conjunto para o local das sessões.

29/11/2011

Registo fotográfico - sessão de Novembro

17 de Novembro
Casa do Ermitão - Serra de São Julião - Carvoeira



O exterior


Grupo I


Grupo II


Grupo III


Grupo IV


Grupo V


A obra


A dinamizadora, Filipa Barata

 
Momento musical I


Momento musical II

 
Créditos fotográficos de Joaquim Moedas Duarte e Carlos Andrade

16/11/2011

Os pescadores - excerto


(...) Como vivem estes homens? Agrupam-se no extremo sul da povoação. Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta. Trapos, velhas redes, raias escaladas ao sol enfiadas num pau. Ao lado apodrecem barcos e estende-se o sargaço. As mulheres escorrem salmoura e por toda a parte há restos de sardinha e filharada. A vida pulula, a vida pródiga e incessante. Dentro dos casebres uma salinha com uma dependência, a camarata, onde dorme o casal, e o falso, para guardar o que ele tem de mais precioso, as redes. A caixa, alguns bancos. Debaixo da cama o berço dos filhos e panais velhos. A cozinha mete medo com caldeira de cozer a casca, o forno e os potes de ferro. De noite tudo isto é alumiado pela luz da graxa de peixe, que enfuma as paredes e cheira que tresanda.
Eis como vivem estes homens.
(...)

PORES DO SOL

Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário. 
Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes. Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte mm um ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da Lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta. Tardes violetas, oeste ar tão carregado de salitre que toma a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados ...
Um poente desgrenhado, mm nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do forte. Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas – e não quer morrer...

Há na areia uns charcos onde se reflecte o universo – o céu, a luz, o poente. Não bolem e a luz demora-se aí até ao anoitecer. E como o poente é oiro fundido sobre o mar inteiramente verde, que a noite vai empolgar não tarda, os charcos, entre a areia húmida e escura, teimam em guardar a luz concentrada e esquecida.

Em todo o dia, o mar não se viu nitidamente. Névoa esbranquiçada, grandes rolos de poeira e sol misturados, água de que se exala um hálito verde envolvido nas ondas. Por fim, o Sol desceu e um nevoeiro imprevisto entranhou poalha de oiro no mar esverdeado, fantasmagoria e sonho nesta frescura extraordinária.

Agora este, teatral, com largas gambiarradas, franjadas a oiro, acabado de pintar pelo cenógrafo para uma apoteose, e outro que não sei descrever, feito com muito pouco: quase desmaiado, um nada de luz no mar efémero, um nada de luz no céu efémero e a montanha roxa ao fundo prestes a desvanecer-se...

Agora é prata, daqui a pouco é oiro, e quando o Sol desaparecer de todo, ainda o horizonte fica por muito tempo iluminado. Oiro desvanecido e pó de água que ascende do mar. Um pouco de névoa e dois jactos projectados no céu – verde e oiro, oiro e verde.

Esta tarde, o Sol põe-se sobre uma barra e aparece deformado, entre grandes manchas de nuvens acobreadas. Some-se, e ressurge por fim como um grande balão de fogo num oceano revolto, até que entra numa grande nuvem espessa com interstícios de fogo e explode, iluminando o espaço e a água cor de chumbo.

Este faz sobressaltar e sonhar. Três horas da tarde. Céu limpo, mar manso, e sobre o mar uma chapada de prata, sobre o verde, mil escamas a cintilar, que brilham, luzem e tornam a reluzir. O Sol desce pouco e pouco, majestoso e sereno, no céu todo doirado e a luz forma uma estrada que liga o areal ao infinito, uma estrada larga, de oiro vivo, que começa a meus pés, na espuma ensanguentada, e chega ao Sol. Ó meu amor, não acredites na vida mesquinha, não duvides: dá-me a tua mão e vamos partir por essa estrada fora direitos ao céu!

O NEVOEIRO

Sol e azul e depois névoa. Às vezes começa em Agosto, outras em Setembro. Uma barra ao longe anuncia-a, uma barra que cresce em fumarada sobre a terra, ou que se dispersa correndo para o sul, em labaredas sobre o mar esverdeado. Há outras névoas no Verão que se descerram lentamente como cortinas, ficando o panorama límpido como uma aguarela acabada de pintar. Outras têm léguas de extensão e levam dias a passar. E o mar exala um cheiro mais vivo quando o nevoeiro parece dissolver-se, para logo voltar mais denso e compacto. Às vezes vê-se entre a neblina um ponto da costa cheio de luz, um rasgão no mar, uma única pedra iluminada entre o céu infinito e o mar infinito.

Tenho visto também umas névoas esbranquiçadas que ficam lá para muito fundo embebendo-se de luz. Névoa, um pouco de sol e brancura, tudo emborralhado. A onda vem de longe, irrompe da névoa, e só se vêem os grandes rolos brancos revolvidos de espuma muito ao perto quando se despedaçam.

Em Sagres assisti a um nevoeiro extraordinário. Aparecem primeiro uns flocos no céu, e a luz tomou-se logo mais azul, pegando azul à pele, molhando de azul as mãos estendidas. Depois a névoa, que no Verão dura segundos, doirou e subiu ao ar, tornando o horizonte mais ilimitado e fantasmagórico...

As névoas anunciam o Inverno. Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. O sino tange. Não se vê palmo diante do nariz. Lá fora os barcos, como cegos, só se guiam pelo som. 0 mar é um misterioso fantasma que os envolve. Cerração cada vez mais mole e espessa... Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo. Às vezes adelgaça-se um pouco na costa, e grandes rolos de fumaceira crescem do mar sobre a terra. É o Inverno que vem aí. A voz imensa tem já plangências de dor – desabar infinito de lágrimas. De sul para o norte as nuvens correm sempre, coortes sobre coortes que saem das profundas e avançam, deslizam sobre as águas sem ruído, enchendo o céu de farrapos enormes, de fantasmas criados naquele mar salgado e que se seguem em tropel num galope monstruoso para uma grande batalha desconhecida. E de quando em quando o sino chama, chama sempre pelos homens perdidos na névoa espessa que leva dias a passar.

Raul Brandão - Os pescadores. Porto: Mabreu, 1986

Imagem: Lázaro Lozano - Pescadores

02/11/2011

Raúl Brandão - biografia


Prosador, ficcionista, dramaturgo e pintor, oriundo da Foz do Douro, no Porto, nasceu a 12 de março de 1867, mas viveu parte da sua vida em Lisboa, onde veio a falecer a 5 de dezembro de 1930. Descendente de homens do mar, a sua infância foi marcada pela paisagem física e humana da zona piscatória da Foz do Douro. Ainda no Porto, conviveu com os jovens escritores António de Oliveira, António Nobre e Justino de Montalvão com quem, em 1892, subscreveu o manifesto Nefelibatas. Iniciou a sua carreira literária em 1890 com Impressões e Paisagens. Frequentou o curso superior de Letras, mas ingressou na carreira militar. Colocado em Guimarães, retirou-se para a Casa do Alto, quinta próxima de Guimarães, local de produção da maior parte da sua obra literária, alternando o isolamento nortenho com estadias em Lisboa, onde desenvolveu paralelamente uma atividade jornalística, tendo colaborado em publicações como o Imparcial, Correio da Noite, Correio da Manhã e O Dia. Nestes últimos, é constante o seu debruçar sobre o terrível drama da condição humana, perpassado pelo sofrimento, a angústia, o mistério e a morte. São também constantes as referências aos ofendidos e humilhados, face visível da expressão humana que é um dos motivos mais regulares na sua obra.

(...)

Ler o restante artigo aqui
 
Raul Brandão. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-11-02].

26/10/2011

Um mar de chuva e... Os pescadores

17 de Novembro (5ª feira) | 19h30
Casa do Ermitão - Serra de São Julião - Carvoeira

O traço pictórico em Os pescadores, de Raul Brandão

Por Filipa Barata

Sinopse: Porventura uma das obras mais conhecidas deste autor, Os Pescadores constituem-se como um conjunto de textos que frequentemente se assemelham a pequenos quadros, cujo pano de fundo é sempre o mar. A utilização de uma linguagem onde abundam os pormenores pictóricos fazem de Os Pescadores um dos exemplares mais belos da nossa literatura, tornando-o, não só no testemunho escrito de uma viagem pela costa marítima portuguesa, mas também num documento sobre o modo de vida das suas gentes.

Contamos com a sua inscrição!

Participação livre, até 20 participantes!

Contactos: IsabelRaminhos@cm-tvedras.pt ou 261 310 479

Atenção: A Biblioteca Municipal não garante transporte.
Será marcado um ponto de encontro em frente à Biblioteca Municipal para irmos em conjunto para o local das sessões.

19/10/2011

Registo fotográfico - sessão de Outubro

13 de Outubro de 2011
Quinta da Charneca - Carvoeira


Visita às cavalariças


A ouvir a história dos cavalos residentes



Grupo I


Grupo II

Créditos fotográficos: Rui Passiano e Isabel Raminhos

12/10/2011

Bom dia, por Manuel da Fonseca

Bom dia

   Escada abaixo, quebrando, degrau a degrau, o sonolento silêncio do prédio, chegou-lhe aos ouvidos o distante pregão da mulher dos jornais. O pregão sonoro e lento, cantado, que era para ele como que o resumo de todos os pequenos acontecimentos que anunciavam o amanhecer da cidade.
   Na rua, reluzente de água, ainda fazia escuro. Uma baça claridade de cinza derramada, densa, sumia o alto dos prédios, desfocava as árvores. Perto, as ramagens desenhavam-se de folhas húmidas e verdes, nítidas. Depois, ficaram para trás, diluíram-se na espessura molhada do nevoeiro, que as apagou lentamente.
   De novo o pregão dos jornais, mais perto agora, soou. E, no curto espaço visível, em redondo, que acompanhava o homem, gente surgia. Gente admirada, como ele, daquela primeira manhã de névoa e de frio, após o Verão. E em todos os rostos esbatia-se um sorriso de vaga satisfação causado por aquele frio e aquela névoa.
   Inesperadamente, a mulher saiu de uma porta com o seu pregão gritado, e os densos véus de cinza derramada afastaram-se mais - a claridade cresceu, alargou-se em volta.
 - Bom dia - saudou o homem.
 - Bom dia - sorriu a mulher, enquanto lhe estendia o jornal.
   Adiante, vultos apinham-se sob o telheiro da paragem dos autocarros, e das quatro ruas que vêm dar à praça aparece cada vez mais gente.
   De luzes acesas, os automóveis, passam em fila. Pelo passeio, o homem caminha entre a multidão. E, enquanto caminha, pouco a pouco a multidão absorve-o. Agora , na neblina cada vez mais transparente, que paira sobre a cidade, torna-se parte da multidão. Uma pequena parte. Anónimo e indistinto. Um entre todos os que, a cada principar do dia, caminham para o trabalho.

Manuel da Fonseca - O vagabundo na cidade. Lisboa: Caminho, 2001. 124 p. ISBN 972-21-1398-4

26/09/2011

Programa da sessão de Outubro

Programa da sessão


19h15: Ponto de encontro junto à Biblioteca Municipal e partida de Torres para o lugar da sessão – Quinta da Charneca, Carvoeira

19h30: Encontro na Quinta da Charneca e visita ao espaço

19h45: Início da sessão

21h15: Merenda (nesta merenda, composta pelos tradicionais bolos e chá, será também servida uma sopa que terá o custo de €2. Agradecemos que, ao fazer a sua inscrição, nos indique se pretende a sopa).


ATENÇÃO: Inscrição obrigatória.

Contactos: 261 310 479 / IsabelRaminhos@cm-tvedras.pt

Número máximo de participantes: 20 pessoas

Até à próxima quinta... na Quinta da Charneca... com Livros!

21/09/2011

Depois do verão... Manuel da Fonseca

13 de Outubro (5ª feira) | 19h30
Quinta da Charneca - Carvoeira


A construção da figura humana em O vagabundo na cidade, de Manuel da Fonseca

Por Filipa Barata

Sinopse: O Vagabundo na Cidade, conjunto de pequenas crónicas sobre o quotidiano urbano, onde as personagens se autonomizam do texto inicial, ganhando uma existência mais próxima da realidade humana. Neste sentido, o texto funciona como paisagem primordial, a partir da qual o narrador recorta os tipos humanos, emprestando-lhes a cor e o traço próprios da pintura.


Contamos com a sua inscrição!
 
Contactos: IsabelRaminhos@cm-tvedras.pt ou 261 310 479
 
Atempadamente será disponibilizado um mapa com as indicações de como chegar aos locais das sessões.
Será também marcado um ponto de encontro em frente à Biblioteca Municipal para quem tiver mais dificuldades na deslocação.

06/09/2011

"Rentrée" de leituras com muitas novidades


Para o último trimestre de 2011, o ciclo de leituras de Quintas com Livros será subordinado ao tema “Literatura e Paisagem”, com a eleição de obras de três grandes vultos da literatura portuguesa do séc. 20:

   • Manuel da Fonseca (comemoração do centenário de nascimento 1911-1993)
   • Raul Brandão (1867-1930)
   • Alves Redol (comemoração do centenário de nascimento 1911-1969)

 As sessões serão dinamizadas por dois convidados, Drª Filipa Barata e Prof. Joaquim Moedas Duarte, e terão lugar em três espaços rurais do concelho de Torres Vedras. 
 
LEITURAS
 
Qui 13 de Outubro

A construção da figura humana em O vagabundo na cidade, de Manuel da Fonseca
Por Filipa Barata
Local: Quinta da Charneca - Carvoeira

Qui 17 de Novembro

O traço pictórico em Os pescadores, de Raul Brandão
Por Filipa Barata
Local: Casa do Ermitão - Serra de S. Julião - Carvoeira

Qui 15 de Dezembro

Os "nómadas do rio" e a cultura avieira: uma leitura actualizada de Avieiros, de Alves Redol
Por Joaquim Moedas Duarte
Local: Casal do Gil - Monte Redondo


Marcamos encontro na próxima Quinta...com Livros!