26/03/2010

A sombra da águia - uma outra forma de relatar a guerra


Anos mais tarde, depois da Rússia, de Leipzig e de Waterloo, em Santa Helena e quase a patinar, o Anão confiaria ao seu fiel companheiro de desterro, Les Cases, que em Sbodonovo a Virgem lhe tinha aparecido. Caso contrário, como é que se consegue explicar, Les Cases: um batalhão que nem sequer é francês e muda o rumo da batalha sovando os russos pela medida grande, ou seja passando pela pedra de amolar toda a bateria de artilharia com peças de doze e quatro ou cinco regimentos, príncipe Rudolfkovski incluído. Segundo os seus últimos biógrafos, o Ilustre fazia estas confidências enquanto cravava agulhas num bonequinho de cera que representava a efígie do seu carcereiro, Sir Hudson Lowe, o malvado inglês a quem o governo de Sua Majestade Britânica encarregou do exílio e da liquidação, naquela ilhota do Atlântico transformada em prisão, do homem que tinha passado vinte anos a jogar bowling com as coroas da Europa. Ali, nos longos serões do Inverno, rodeado pelos últimos fiéis, o Petit cabrão passava revista às lembranças gloriosas enquanto Les Cases e Bertrand bebiam Porto e tomavam notas para a posteridade...

Excerto do Cap. VIII - Confidências em Santa Helena, pág. 81, in Arturo Pérez-Reverte - A sombra da águia. Porto: Porto Editora, 2009. 120 p. ISBN 978-972-0-04515-7

1 comentário:

Avelaneira Florida disse...

Com muita, muita, pena minha não
me foi possível estar presente!!!!!

Adorei ler mais este livro do P.Reverte!!! Sentido de humor e escrita de uma fluência admiráveis.
E depois a conversa entre amigos de que se pode usufruir pela noite fora...
Mas espero poder voltar em breve!!!!